quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Campo de sucatas


Saudade do futuro que não houve
aquele que ia ser nobre e pobre
como é que tudo aquilo pôde
virar esse presente podre
e esse desespero em lata?

pôde sim pôde como pode
tudo aquilo que a gente sempre deixou poder
tanta surpresa pressentida
morrer presa na garganta ferida
raciocínio que acabou em reza
festa que hoje a gente enterra

pode sim pode sempre como toda coisa nossa
que a gente apenas deixa poder que possa


Paulo Leminski

A Razão do Poema


Do que é feito o poema?
Barro de essência invisível?
Nuvem de tons arcoirizados?
Elementos dispersos,
Pelo poeta magnetizados?
Ou densa identidade
de expressão incontida?
O poema é amante,
Sentimento levitante
Viagem santa e atrevida
Pulso de um sonho em prece
Aborto, parto, nascente.
O poema é só palavra
E o poeta: inconseqüente...
 

Eurídice Hespanhol

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A saudade voa no espaço sideral


Versos embebidos de saudade
Dos momentos de felicidade.
Letras que exprimem a dor;
E retrata o que sente o interior.

Versos que formam a poesia.
Pinta a dor ou a magia.
Sofre e ama acompanha os fatos;
Felizes ou ingratos.

Versos formados na alma
Que alivia produz calma.
Passa e entrelaça todos os sentidos.
E nova mensagem afaga os ouvidos.

Versos de amor e encanto
No céu azul voa e colhe o pranto.
A saudade bilateral;
Voa no espaço sideral.

Versos se encontram nos ares
O coração verseja formam pares;
Revela que ama e sofre pela saudade.
Marcam encontro e exultam de felicidade.


Hortência Lopes

“APRENDENDO A VERSEJAR”


Procuro por alguém
Que me ensine a versejar...
Quero escrever um poema,
E a ti ofertar...

Não quero ser poeta,
Muito menos escritor...
Mas escrever algumas linhas,
Para demonstrar meu amor...

Não sei quanto tempo
Vou demorar em escrever...
Mas será especial,
E gostoso de ler...

Estou certo deste amor
E de ninguém vou esconder...
Publicarei em jornal,
Assim que aprender...


RAUL DIAS

*Sou Assim*


A constante espera do acerto
o defeito da busca de mais,
o confronto de tudo; inexato...
sou o fato fugindo dos ais

Sou a chave de seu teorema
estratagema de sua ilusão;
e perdido entre o fim e o começo
sou o tropeço de sua aversão...

Sou a deixa que você supõe
desacerto maquiado de bom,
sou a túnica que cobre seu corpo
sou o gosto que tem seu batom...

Sou de longe o que de perto sente
o presente que você não previa,
sou ausência rimando; carência
sou muito mais do que você imagina.

Marçal Filho

Somos como as estações


Tem horas que os sentimentos
Passam por determinados momentos
Como se fossem cobertos pela sombra
Nos provocando certa escuridão
Que faz chorar o coração.
É como se a alma sentisse frio
Provocando intensos calafrios
Despertando uma carência
Pela saudade, pela ausência
Qual o motivo
Nem mesmo sabemos.
Nestas horas o sol perde o brilho
A flor mesmo bela não encanta
Nem o perfume dela se sente;
Nem mesmo a beleza presente
É capaz de transformar
A alma que está a chorar.
Como as estações
Assim são nossas emoções
Hora vivemos primaveras
Em outros longos verões
Porém também intensos invernos
E outono em outros momentos.


(Aut. Ataíde Lemos)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

DESCOMPASSO


Tem dias que as horas passam
num tempo diferente do meu.
Às vezes escorrem tão lentas,
às vezes apressadas demais!

Tempo de descompasso,
de se caminhar aos pedaços,
vez por outra um tropeço,
e a menor fração do momento
é nada mais que um estilhaço
e quando percebo volto ao começo,
às vezes de forma bem lenta,
quase sempre apressado demais.

E o tempo vira um amontoado de escombros,
onde o poeta se inquieta,
e o verso se contorce no assombro
da pressa ou impaciência,
de não ter como brotar.

Tem dias que as horas passam
num tempo diferente do meu
e eu nem sei como evitar.


NALDOVELHO

QUEM INVENTOU O AMOR ?


Ponha suas mãos sobre as minhas...
Deixa eu admirar
essas formas suaves
Que seus dedos tem...
Deixa eu imaginar
Que nunca acaba...
Tenho em meu bolso
O papel que ontem
Você escreveu meu nome
e desenhou um céu...
E mais nada importa...
Fica um mundo inteiro de Histórias
para cuidar bem depois...
Ah!você pode ir...
Eu sei...
Eu não sei esperar...
Todos partimos...
Todos voltamos...

Mas nunca me mande
uma carta de adeus...
se um dia for...
que seja como a maré alta
que espantou os amantes...
mas ali deixou
conchinhas coloridas...

Lupi

A Canção da Saudade


Que tarde imensa e fria!
Lá fora o vento rodopia...
Dança de folhas... Folhas, sonhos vãos,
que passam, nesta dança transitória,
deixando em nós, no fundo da memória,
o olhar de uns olhos e a carícia de umas mãos.
Ante a moldura de um retrato antigo,
põe-se a gente a evocar coisas emocionais.
Tolda-se o olhar, o lábio treme, a alma se aperta,
tudo deserto... a vide em torno tão deserta
que vontade nos vem de sofrer mais!
Depois, há sempre um cofre e desse cofre
tiramos velhas cartas, devagar...
É a volúpia inervante de quem sofre:
ler velhas cartas e depois chorar.
Que tarde imensa e fria!
Nunca mais te verei... Nunca mais me verás...
Lá fora o vento rodopia...
Que desejo me vem de sofrer mais!

(Olegário Mariano)

Quem Sou Eu?


Eu sou a curva fechada
E a voz embargada
Sou o medo da derrota
E o final da anedota
Eu sou o vento frio
Que te provoca arrepio
Sou a água fervente
na sua dor de dente
Sou a pancada que acerta
Na ferida aberta
Sou o rosnar do cão
E a briga por um pão
Eu sou o relógio parado
E um cigarro apagado
Eu sou um purgante
No frasco de adoçante
Eu sou a vergonha de viver
E a vontade de beber
Eu sou a água imunda
Onde o barco afunda
Sou a pergunta repetida
E a verdade escondida
Eu sou a bula do remédio
E um dia de tédio
Eu sou aquilo que não presta
E tudo que te resta.


(TKM - Fogovivo)

domingo, 13 de setembro de 2009

Canção da mirada secreta


Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
segredos num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raízes.

Lya Luft

Eu sou...


Eu sou...
Tudo ou nada...
Sou forte ou frágil
Dependo do momento
Sou como cristal furta-cor
Que se sujeita a projeção...
da luz no vento
Amando faço que preciso for
Não me julgue...
Sou simplesmente mulher
Sinônimo do amor!


Rô Lopes

Se você se vai...


Minha alma na tua alma,
meu coração no seu coração
Amor envolvente...

Nuvem que veio com o vento,
Passou por um instante
Roçou por um momento...

Afagou meu pensamento
Com caricias angelicais,
Doçura que só você sabe ter,
Amor que eu amo
E não quero perder...

Dia e noite são iguais
Se você não está
Brilha o sol se você chega
Fica noite se você se vai...

Maria Bonfá

SILÊNCIO AMOROSO - 2


Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
— de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.  


Affonso Romano de Sant'Anna

Sempre estremeço ante a poesia.
A amendoeira,os pássaros,o bosquezinho onde você está,
as flores que você não vê,a janela aberta sobre a qual eu me debruço
e sonho que você está encostado em meu ombro,
às vezes em que sua fotografia parece triste.


Mas quero escrever,sobretudo eu quero escrever
uma espécie de longa elegia para você.
Talvez não em poesia. Nem em prosa, talvez.
Quase com certeza num tipo de prosa especial.

E,por fim,quero manter um caderno de notas para ser publicado algum dia.
Só isso. Nem novelas, nem histórias de problemas,
nada que não seja simples e transparente.

Katherine Mansfield

sábado, 12 de setembro de 2009

ENQUANTO A LUA


Quando a lua empurra o mar
eu beijo água que me deu vida.
Quando a lua sorri no céu
eu acendo-lhe uma despedida.

Quando a terra se espreguiça
eu espreguiço-me com ela.
Quando a terra se emociona
eu pinto-lhe uma aguarela.

Quando o vento afaga troncos
eu sorrio de alegria.
Quando o vento corre louco
eu fico louco de poesia.

Quando o fogo dança dentro
eu acendo chamas de esperança.
Quando o fogo queima novo
eu transpiro a confiança.

Quando dois lábios se tocam
eu gotejo força de paixão.
Quando dois lábios se querem
eu entrego o meu coração.


NUNO RITA

Sacode as nuvens que te pousam nos cabelos


Sacode as nuvens que te pousam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.


Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Verao


um tiro de beijos
no alvo certeiro
no fundo do peito
dos lábios - na beira
menina faceira
me devora inteiro
como pirulito
em festa de Sao Joao
dormes no mundo
e acordas no coracao
pulsando teu nome

ah, esses desvaneios
e suspiros de leao
minha féra, tigresa
nessa noite queira
beija-flor beijar
tua rosa em botao.


sergio, beija-flor-poeta

MERAS ALEGRIAS


Não fique triste!
A vida é assim,
Cheia de predegulhos,
Que nos ferem,
Que nos matam.

Poucas vezes,
Os caminhos são floridos,
Coloridos, perfumados,
Adornados pela fantasia,
Que nos faz seguir em frente.
Por vezes,
Sentimo-nos contentes.

São meras as alegrias,
Pois a ventania
Logo apaga o desenho
E o coração fica vazio,
A mercê das intempéries,
Do rigor do frio,
Da solidão implacável
Do desamor.

Resta apenas,
A certeza de que tudo passa!
Fique triste, não!
Vou te fazer um verso,
Uma canção...
Vou te arranjar um banquinho cativo
Neste meu coração.

(Genaura Tormin)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O INESPERADO


Não há mais nada para acontecer
Nada que não seja previsto
Nada que possa surpreender
Não espanta flores nascendo nas calçadas
Não apavora estrelas novas sendo penduradas
Nem o corpo vencendo a física
Nem o cego lendo mímica
Nem a ciência na sua vã experiência e sua cara de
reticências nas coisas que o amor pode fazer...
O mais impossível era esse encontro
Entre tantos desencontros,
Entre tudo que não tinha nada a ver,
Só tinha que ser você para ser inesperado
E agora que venha o que vier
Porque de resto nada além,
Agora o que vem já é esperado

Cáh Morandi

Soneto do Amor perdido


Desejo-te toda a felicidade dos meus dias
Para que enfeites a tua vida com amores...
Só não te desejo as minhas loucas utopias
Que são quentes, às vezes vãs, e sem cores!

Por onde andar espalhe as minhas alegrias
Porque são divinas, sem regras e sem dores...
Mas não se esqueça, amor, das melancolias,
Que a dor me fere, em fragrância de flores...

A minha alma se despede do teu mundo
Alegre, mas com um sentimento profundo
Porque já não sou, amor, a sua realidade...

Eu tremo, estou em prantos, mas sou forte
Para enfrentar o momento triste da morte,
De um amor, que em mim jurou eternidade!...


(Poeta- Dolandmay)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Canção da Mulher que Escreve


Não perguntem pelo meu poema:
Nada sei do coração do pássaro
Que a música inflama.

Não queiram entender minhas palavras:
Não me dissequem, não segurem entre vidros
Essas canções, essas asas, essa névoa.
Não queiram me prender como a um inseto
No alfinete da interpretação:
Se não podem amar o meu poema, deixem
Que seja somente um poema.

(Nem eu ouso ergue-lo entre meus dedos e perturbar a sua liberdade)


Lya Luft

DIVINIZAÇÃO


Eu vou cantando aqui minhas canções
que são como resinas adoçadas
esmagachadas no correr da noite.

Vou apertando aqui os meus rosais
um meu amor e grande, em cada rosa,
um beijo meu em cada broto brando...

Eu vou cantando no correr da noite
uma cantiga por ninguém cantada...


(Pablo Neruda - do livro: O rio invisível)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

ÁGUA DE REMANSO


Cismo o sereno silêncio:
sou: estou humanamente
em paz comigo: ternura.

Paz que dói, de tanta.
Mas orvalho. Em seu bojo
estou e vou, como sou.

Ternura: maneira funda
cristalina do meu ser.
Água de remanso, mansa
brisa, luz de amanhecer.

Nunca é a mágoa mordendo.
Jamais a turva esquivança,
o apego ao cinzento, ao úmido,
a concha que aquece na alma
uma brasa de malogro.

É ter o gosto da vida,
amar o festivo, e o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.

Pode também ser tristeza:
tranqüilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.

Sou: estou e canto.


Thiago de Mello
in " A Fruta Aberta "

As rosas


As rosas que eu colho
não são essas, frementes
na iluminação da manhã;
são, se as colho, as dum jardim contrário,
nascido desses, vossos, de sua terrosa
raiz, mas crescido inverso
como a imagem nágua;
aonde não chegam os pássaros
com seu roubo, no exasperado coração da terra,
floresce, tigre, isento de odor.

(Ferreira Gullar)

Ausência


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Abelhas do Asfalto


Em todo canto há uma esperança
Em todo verde há um louva-a-deus
Em cada hino há um pedido
Em cada pedido há um farol...

Pena não ser luz que conduz
Navegantes, é luz rubra que
Para as pessoas pra verem o
Futuro vendendo balas...

"Adoce a vida em troca
De alguns trocados!"

Essa é a promessa feita
Pelas pequenas abelhas
Operárias, que vendem
O mel do sustento...

Muitas tiram pra os grãos
Outras tiram pra pedra...

Foi-se o tempo que craque
Era quem fazia muitos gols!

O que fazer se o Planalto,
Da plana cidade não faz?

Só temos que parar e ficar
Vendo o futuro vendendo balas
Pra quem passa pela via negra!


Pergentino Júnior

domingo, 6 de setembro de 2009

Madrigal Melancólico


O que eu adoro em ti
Não é sua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza
O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Mas é o espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é tua ciência
Do coração dos homens e das coisas
O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz
O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza
O que adoro em ti lastima-me e consola-me
O que eu adoro em ti é a vida!


Manuel Bandeira

SOBREVIVÊNCIA


Ainda que cortem minhas asas
Minha imaginação seguirá voando...
Ainda que me tirem as pernas
Seguirei andando de cabeça erguida...
Ainda que me arranquem os braços
Eles estarão sempre abertos e abraçando...
Ainda que me ceguem os olhos
Continuarei enxergando amor em tudo...
Ainda que me tapem os ouvidos
Escutarei sempre o meu coração...
Ainda que me calem a boca
Levarei a minha palavra adiante...
Ainda que me tirem todo o ar
Eu respirarei poesia...e sobreviverei!

Milene Sarquissiano

"LISBOA"


Anda vem ver Lisboa
cidade do meu Outono.

Vê como tombam as folhas
na Avenida da Liberdade.

Vamos até ao Rossio?
onde se passeia a vaidade
e os senhores se enamoram
das floristas e das flores.

Mas é nos Restauradores
que os barcos se avistam no Rio
no Chiado de Pessoa
onde a Bica é mais gostosa
ali mesmo na Brasileira
aquela mesa do exílio
do Kubitschek de Oliveira.

Vem,
Vamos até ao Bairro Alto
dos botequins, da boémia
e dos enamorados unisexo
um convite ao desejo
nas mercenárias do sexo.

É a calçada do amor
desenhada a emoções
das varinas e dos pregões...


Luíza Caetano
In Lisboa In Versos