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domingo, 21 de março de 2010



Deus,
eu faço parte do teu gado:
esse que confinas em sonho e paixão
e às vezes em terrível liberdade.
Sou, como todos, marcada neste flanco
pelo susto da beleza, pelo terror da perda
e pela funda chaga dessa arte
em que pretendo segurar o mundo.
No fundo,
Deus,
eu faço parte da manada
que corre para o impossível,
vasto povo desencontrado
a quem tanges, ignoras
ou contornas
com teu olhar absorto.
Deus,
eu faço parte do teu gado
estranhamente humano,
marcado para correr, amar, morrer
querendo colo, explicação, perdão
e permanência.


Lya Luft

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

MAIS UMA CURVA DO RIO


"Quando pensei que tinha chegado
era outra surpresa,
era mais uma curva no rio.
Quando calculei que tudo estava pago
havia ainda os juros
do tempo do esforço do amor.
Quando achei que estava acabado
os caminhos se espalmaram
como dedos da mão de um deus,
na torrente no vento
no sopro do universo..."


Lya Luft

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Contornos !!!


Já não procuro a palavra exata
que me pudesse explicar:
Ando pelos contornos onde todos os significados
são sutís,são mortais.
Não busco prender o momento belo:
quero vivê-lo sempre mais com a intensidade que exige a vida.


(Lya Luft)

domingo, 13 de setembro de 2009

Canção da mirada secreta


Foram-se os amores que tive
ou me tiveram. Partiram
num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
a não acreditar na morte
nem demais na vida: cultivo
segredos num jardim
onde estamos eu, os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham
como pedras de cor entre as raízes.

Lya Luft

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Canção da Mulher que Escreve


Não perguntem pelo meu poema:
Nada sei do coração do pássaro
Que a música inflama.

Não queiram entender minhas palavras:
Não me dissequem, não segurem entre vidros
Essas canções, essas asas, essa névoa.
Não queiram me prender como a um inseto
No alfinete da interpretação:
Se não podem amar o meu poema, deixem
Que seja somente um poema.

(Nem eu ouso ergue-lo entre meus dedos e perturbar a sua liberdade)


Lya Luft