terça-feira, 8 de setembro de 2009

Ausência


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Abelhas do Asfalto


Em todo canto há uma esperança
Em todo verde há um louva-a-deus
Em cada hino há um pedido
Em cada pedido há um farol...

Pena não ser luz que conduz
Navegantes, é luz rubra que
Para as pessoas pra verem o
Futuro vendendo balas...

"Adoce a vida em troca
De alguns trocados!"

Essa é a promessa feita
Pelas pequenas abelhas
Operárias, que vendem
O mel do sustento...

Muitas tiram pra os grãos
Outras tiram pra pedra...

Foi-se o tempo que craque
Era quem fazia muitos gols!

O que fazer se o Planalto,
Da plana cidade não faz?

Só temos que parar e ficar
Vendo o futuro vendendo balas
Pra quem passa pela via negra!


Pergentino Júnior

domingo, 6 de setembro de 2009

Madrigal Melancólico


O que eu adoro em ti
Não é sua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza
O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Mas é o espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é tua ciência
Do coração dos homens e das coisas
O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz
O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza
O que adoro em ti lastima-me e consola-me
O que eu adoro em ti é a vida!


Manuel Bandeira

SOBREVIVÊNCIA


Ainda que cortem minhas asas
Minha imaginação seguirá voando...
Ainda que me tirem as pernas
Seguirei andando de cabeça erguida...
Ainda que me arranquem os braços
Eles estarão sempre abertos e abraçando...
Ainda que me ceguem os olhos
Continuarei enxergando amor em tudo...
Ainda que me tapem os ouvidos
Escutarei sempre o meu coração...
Ainda que me calem a boca
Levarei a minha palavra adiante...
Ainda que me tirem todo o ar
Eu respirarei poesia...e sobreviverei!

Milene Sarquissiano

"LISBOA"


Anda vem ver Lisboa
cidade do meu Outono.

Vê como tombam as folhas
na Avenida da Liberdade.

Vamos até ao Rossio?
onde se passeia a vaidade
e os senhores se enamoram
das floristas e das flores.

Mas é nos Restauradores
que os barcos se avistam no Rio
no Chiado de Pessoa
onde a Bica é mais gostosa
ali mesmo na Brasileira
aquela mesa do exílio
do Kubitschek de Oliveira.

Vem,
Vamos até ao Bairro Alto
dos botequins, da boémia
e dos enamorados unisexo
um convite ao desejo
nas mercenárias do sexo.

É a calçada do amor
desenhada a emoções
das varinas e dos pregões...


Luíza Caetano
In Lisboa In Versos

Conte a sua história ao vento


Conte a sua história ao vento,
Cante aos mares para os muitos marujos;
cujos olhos são faróis sujos e sem brilho.

Escreva no asfalto com sangue,
Grite bem alto a sua história
antes que ela seja varrida
na manhã seguinte pelos garis.

Abra seu peito em direção dos canhões,
Suba nos tanques de Pequim,
Derrube os muros de Berlim,
Destrua as cátedras de Paris.

Defenda a sua palavra,
A vida não vale nada se você
não viver uma boa história pra contar."


(Pedro Bial)

SOB O CÉU TÃO AZUL


Sob o céu tão azul que se espiritualiza,
o jardim vai fechar as pétalas das rosas
como alguém que cerrasse as pálpebras medrosas
para ver o que só no sonho se divisa...

Tudo adormece em torno...E a paisagem, mais lisa
que um esmalte, desfaz em sombras vaporosas...
Passam apenas no ar, vêm das moitas cheirosas
perfumes doces, sons de frauta pela brisa...

A noite desce e apaga as cores... E a vida
do jardim silencioso onde as luzes se enfeixam,
sobrevive somente a voz d´água, esquecida.

E sob o céu azul que se prolonga além,
fecham-se as flores, como os olhos, lentos, fecham
para ver o que só no sonho os olhos vêem...


Onestaldo de Pennafort

Rua da solidão


Eu amava aquela terra
onde as ruas eram livres
onde eu podia correr.
Dei um nome a esta rua
rua da solidão
números das ilusões.

Lá as noites eram lindas!
luar, estrelas, solidão
céu azul quase veludo
os vaga-lumes piscando
com inveja das estrelas
brilhavam pra se mostrar.

Noites enluaradas
a árvore fazia sombra
tudo ficava tão lindo!
e eu não parava de sonhar
ali eu plantei mil sonhos
e mil ilusões eu plantei
mas da rua da solidão eu sai
em outra terra fui viver
e as ilusões, e os sonhos,
não chegaram a florescer.


Terezinha C Werson

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O Poço


Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

Balé das Borboletas


Abro a janela e contemplo o jardim
Borboletas bailam por sobre as flores
Do fiel jardineiro são seus amores
Farfalhando suas asas num festim.

A beleza de suas cores me encanta
Deixando em suave êxtase minh’alma
Trazendo ao meu coração muita calma
Doce brisa do vento me acalanta.

Alçam vôos em busca da liberdade
Envolvo-me também em seus anseios
Levam mensagens quais pombos-correios
Da poesia cantando a felicidade.

Saltitam, percorrem livres os ares
Voam à procura da essência do amor
Guerreiras aladas vencendo a dor
Sobrevoam céleres por sobre os mares.

Neneca Barbosa

Poesia da vida


Sobre as rosas que perfumam meus caminhos
eu declino cores, sons, versos e rimas
que dormitam em gotas de sereno
que as noites ligeiramente frias vem beijar...

Em mim há só amor, inspiração e poesia
embebidas no doce ar que respiro.

Vivo a me embriagar nas sutilezas
como uma folha, apêndice de uma rosa
a completar com encanto sua beleza...

E uma suave canção vive a vibrar
alegre no meu coração...
É aquela canção que ressoa no mesmo refrão:
Que amar nunca foi e jamais será em vão.


Denise Flor©

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

É fácil trocar as palavras


É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.


(fernando Pessoa)

Centelha ao Meu Amor"


Sou prá ti uma centelha
Sou o verso em canção
Sou poema inacabado
Sou prá ti toda emoção
Sou nada prá você!
Sou o tudo pró seu amor!

Sou uma simples poetisa!
Sou só pró seu coração...
Sou tristeza, e também alegria!
Sou tudo se comigo estás!!!
Sou uma estrofe perdida
Sou um tema em composição...

Sou quase alegria, mais
Sou dependente de você!
Sou seu sol em pleno dia
Sou também o seu luar!
Sou o passarinho cantor
Sou o teu despertar meu amor!

(Dollores)

ENTRE AS FLORES....


Me deixo ficar entre as flores...
assim te espero!
O amor maior em sua essência
e configuração, em si mesmo venero!
Talvez nem demores a vir!
Chegastes ligeiro e afinando a voz,
entoastes as sutis notas do sentir
que podes vir a ser...um bem querer!
Tens o pulso forte de quem
sabe o que quer e vai à luta.
Talvez um majestoso totem
de séculos, quem há de saber ?
Me fizestes sorrir ao dizeres:
- Recuperemos o tempo perdido.
Senti nas entrelinhas dos prazeres,
a hora do supremo amor apetecido.
Então...
me deixo ficar entre as flores...
No meio delas, te espero!


Guida Linhares

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

‘MOCIDADE’


A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa.
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;

Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!

No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!

Ama-me doida, estonteadoramente,
O meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...


Florbela Espanca
In: 'Charneca em flor'

SONHO COSTUMEIRO


Eu sonho-te nas ramas das videiras
como frutos dos vinhos de venturas
em rebentos de graças costumeiras
que me lavam de brisas e ternuras.

E vejo como em sonhos de pastora
tanges de mim sentidos já remidos
e me levas em sombras protetoras
à ravina de amor dos teus abrigos.

E tenho-te nas heras dos penedos
meu pássaro cantor que a ti visita
nos jardins de secretos arvoredos
onde teu sonho de mulher habita.

E fico em ti como o destino antigo
tocado para mais além da história
onde soubeste que sonhar comigo
seria o amor deixado na memória.


Afonso Estebanez

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Canção


Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.


Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.


Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.


Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.


Que tudo o mais é perdido.


*Emílio Moura*

Junquilhos…


Nessa tarde mimosa de saudade
Em que eu te vi partir, ó meu amor,
Levaste-me a minh’alma apaixonada
Nas olhas perfumadas duma flor.

E como a alma, dessa florzita,
Que é a minha, por ti palpita amante!
Oh alma doce, pequenina e branca,
Conserva o teu perfume estonteante!

Quando fores velha, emurchecida e triste,
Recorda ao meu amor, com teu perfume
A paixão que deixou e qu’inda existe…

Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde,
Que venha aquecer-se ao brando lume
Dos meus olhos que morrem de saudade!


Florbela Espanca - O Livro D’Ele

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Folhas de Rosa


Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo ...

E falo-lhes d'amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente ...

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m'embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que reflectia outrora tantos risos,
E agora reflecte apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado...

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...


Florbela Espanca

Sentidos


O meio termo já não me satisfaz.
Nem pessoas máximas vazias
Nem as ínfimas cheias de mais.
Se por isso me sentencias
Se não me compreendes mais
Digo-te novamente:
É a essência que busco!
Um coração cheio de gente
E não gente cheia de razão.
Quero a carne o osso, a alma
Quero tudo intensamente.
Quero dessa louca vida calma
Desde o fruto
Até a semente!


Carolina Salcides

Sem ti...


Na solidão da noite, te procuro
Dentro da luz do meu pensamento
Iluminado pela saudade, eu tento
Evitar a lágrima no escuro!

A sinto deslizar, num amor puro
Trazendo o sabor do contentamento
Mas a meus lábios, traz o lamento
Da ausência que chora, amor seguro!

E falo à lágrima, que não sente
O sentimento da dor, que saía
Da minha alma tão claramente...

Que, por não ter a tua companhia
A lágrima vai sair constantemente
Até que venha aquele esperado dia!


Loucopoeta

Flores


Teci estas flores...
Com minha ternura,
com minha doçura,
com sonhos gestados
em noites de prata.
Ao som das folhagens,
das mansas aragens...
Teci com orvalho,
com gotas de sangue,
co'a luz do meu ventre...
Com alma plangente...
O melhor de mim.
E num ramalhete,
meu corpo entreguei-te,
banhado nos cheiros
do branco jasmim.
Teci estas flores...
As queres, assim?


- Patricia Neme -

JARDINEIRO


Olha menino, que lindo!
Ganhei um jardim
Não um jardim qualquer
Um jardim de versos
Coloridos e perfumados
Ornado com delicadas rimas
E regado de gentis sutilezas...

Olha menino, que lindo!
Estrelas faceiras e arteiras
Fazendo cócegas nos sonhos
Enchendo olhos de sorrisos
Cegando infelicidades...

Olha menino, que lindo!
Beijos colhidos agora
Metricamente embrulhados
Em lágrimas de saudades
À espera dos lábios de mel
Onde docemente morrerão...

Olha menino, que lindo!
Nuvens vestidas de asas
Debruçadas sobre o arco-íris
Voando esperanças coloridas
Tingindo o cinza de poesia...

Olha menino, que lindo!
A lua caindo feito pingente
No colo da dama-da-noite
Seduzindo a madrugada
Molhada de tanto sereno

Viste menino, que lindo?
Esse jardim mora em mim
Queres ser meu jardineiro?

Milene Sarquissiano

sábado, 29 de agosto de 2009

Entre o Espaço e o Tempo


nas palavras que escrevo
retirando de mim
a essencialidade do nada

Volto ao meu limite
num indisfarçável temos
vendo que nada sou
e o que perdi
é acrescentado em ti

Sou fruto do Universo
enviada em cores
nas gotas de orvalho
exposta ao delírio do destino

Aporto em ilhas de sonhos,
nos lampejos da coragem
indo além de todos meus passos,
encontrando sentido nos desejos
e na realidade,
perco minhas máscaras


Conceição Bentes

"Bailado de uma saudade..."


E quando um olhar
entristecido
Confrontou-se
Com a lua,
Ela não soube o
Que fazer...
Somente encheu-se
De brilho e em
Silêncio pôs-se a
Admirar a saudade
Vestida de gotas
Cintilantes,
Bailando naquele
Olhar...

(Cida Luz)

Trago-te flores!


...E o vento sopra a flor,
não há espaços vazios,
não há espaços em dor,

é forte o calor que arde,
não há sombra no caminho,
é forte o calor da tarde,

mas vejo em cada flor,
alguns sorrisos vadios,
são sorrisos de amor,

palpita-me o coração,
já não caminho sozinho,
tenho flores em minhas mãos.

Santaroza

No soar das sete


E quando é sete do sétimo
O badalar sonoro de uma nota só
Vem lembrar de um ranger
Num vibro que desce da matriz
Infiltrando no silencio, nos capins, e afins,
Feito o grito de um anjo
Ecoando, ecoando até mim...

E na sétima do sétimo
É a hora de orar,
De pedir, agradecer, perdoar...
Com as palmas coladas a aquecer a fé
Não tardando agradecido,
Os sorrisos, que sorri e que fiz e recebi.

Ah! Senão soa o sino
As sete do sétimo e me faz lembrar
Que depois de sorrir, preciso pensar,
Refletir, meditar...
- eu só, um instante só, neste mundo?
Não! Não dá.
Seria um verde sem folhas,
Nem frutos e nem flores...


...........” Catarino Salvador “.

'ROSEIRA BRAVA'


Há nos teus olhos de ouro um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor.

Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio amor!

Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de ouro de rainha!

Tua irmã... teu amor... e tua amiga...
E também - toda em flor - a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!...


Florbela Espanca

Mar e Lua


Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepio
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Rolando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

Chico Buarque

Arroubos


Tu não viste ainda o chegar
das horas, foram passos
que dei, na esperança
que tu os ouvistes, tua
madrugada era triste... lá se
foram arroubos da minha
juventude, se foram meus
mais tenros beijos que dar-te
eu pude... não fora os anos
que passaram por ti, o tempo
deixou em ti parado... enciumado
e distante no tempo esperado.

Arruda Bonfáh