quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Perfumador de Flores


Eis minha vida
que ninguém conhece;
minha eterna lida
suave parecendo prece...
Não tenho nome;
nem tenho cor;
não passo fome;
vivo de flor...
Sou um designado:
o Perfumador de Flores;
vou nos jardins, vasos,
buquês de amores...
Porém, camélias,
dálias e margaridas,
preferem ser sérias,
um tanto contidas...
Transfiro, sendo assim,
o perfume que delas era,
para a rosa e o jasmim
fazerem primavera...
Ao sentires fragrância
numa flor ou no ar,
saiba que minha ânsia
vive por perfumar...

(Heinze)

PAGINA VIRADA:


Manhã de chuva, nuvens densas,
Páramo, cinéreo, nostalgia,
O canto do pássaro aqui distante,
Anunciando um novo dia,

Folhas caídas, chão espesso,
Vento da noite de verão,
Árvores nuas, beleza não há,
Procuro respostas, sem encontrar,

Saudade, sentimento e dor,
Invade o peito sem piedade,
Alastra, queima e sufoca,
É brasa viva, crueldade,

Permeia os raios, a terra esquenta,
Folhas molhadas a secar,
Brisa suave das montanhas,
Acalenta minh’alma, ponho a sonhar,

Sonho de uma noite de verão,
Olhando as ondas do mar,
Noite que não volta mais,
Só me resta sonhar,

Página de uma vida,
Alegria, tristeza e ilusão,
Hoje, virada e esquecida,
Diário do meu coração.


Poeta Mineiro

CARTA DE SAUDADE


Entrego-me tanto
E com tanta força ao irreal
Que quando tenho um “mal súbito“
de realidade...
(podem chamar de saudade...)
Amarga-me a boca de imediato
Respiro devagar...
Tenho um medo enorme
que alguém descubra
algo que nem eu quero saber...
E se eu não for imortal?
E se você não me ama?
E muito pior...
se eu não tenho amor por você?
Deixa eu fechar os olhos um pouco...
Deixa tudo quieto um pouco...
Já tive algumas perdas antes...
São doloridas...
Mas deixa eu sentir essa dor com a mesma
urgência e volume que deixo tudo
Acumular-se em mim...
Deixa...
Daqui a pouco tudo isso passa...
E eu começo a enxergar tudo
em tons de lilás e azul
que não desbotam nunca...

Lupi

Viver a vida


A vida quando se propõe a vive-la
Não pode dela ter medo
Nem deixar que passe apenas os dias
Como folhas secas ao vento
Perdidas em algum lugar no tempo
Viver sem nada construir
E nem temer pelo que vai sofrer.

De cada momento se faz uma história
Que pode ou não concretizar
Que apenas pode ficar na memória
Mas que valeu a pena sonhar
Pois mesmo em sonho existiu.

Um dia certamente chegará
Que você para trás olhará e verá
Que, o que um dia lhe fez chorar
Foi um belo momento vivido
E que valeu a pena ter sentido.

Ataíde Lemos

CAMPO DE MEDITAÇÃO


As estradas que sempre iam,
continuam indo, a despeito de mim
que por hora estou voltando...

Mas quando não houver
mais estradas para quem vai,
suave será a carona dos riachos
que são estradas feitas de lágrimas
de saudade dos amores viajados.

Continuarão, como os dias e as noites,
na direção do reino do nunca mais...
E como as rosas num leito de orvalho,
é possível que eu me reencontre comigo
em qualquer curva do crepúsculo
para o vasto espanto das manhãs
que terei deixado para trás...

E não posso evitar que seja assim:
as estradas levando a memória
do quanto eu ando de rosas
nas veredas do meu jardim...

Afonso Estebanez

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Flores


Eu te ofereço flores
Como prova de amizade
Flores de todas as cores
Com cheiro de felicidade
Te ofereço flores brancas
Pra mostrar que trago paz
Rosas, azuis e amarelas
Pois o carinho é demais
Ofereço flores vermelhas
Que simbolizam a paixão
Que falam do amor imenso
Que tenho no coração
Flores grandes e pequenas
Do campo, rosa,
margarida e jasmim...
Todas lindas e perfumadas
Pra que não esqueças de mim!

Denise Pires

PARTE DE MIM


Acho-me estranha
Gosto da solidão
Guardo segredos do coração
Gosto do silêncio
Da noite
Das canções mais tristes
Das chuvas mais fortes
Temo a morte!
Sou fascinada pelas flores
Resistente a dores
Porém frágil aos amores
Tenho medos que desconheço
E outros que até mereço
Sou avessa ao espelho
Não uso vermelho
Gosto das comidas picantes
Prefiro as bebidas quentes
Temo as alturas
As pessoas
Amo a bravura do mar
Tenho olhos tristes
A razão dentro de mim
Fui buscar
Não encontrei
Você não estava mais lá.

VALQUÍRIA CORDEIRO

Voz Que Se Cala


Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

(Florbela Espanca)

INVENÇÕES


Invento luares de agosto
e auroras boreais
invento as noites mais frias
invento as noites mais quentes
invento crisântemos transparentes
guirlandas de silêncios minerais
invento algas cristalinas
cavernas de cristais
invento o que só com amor
se pode inventar
o que já foi dito mil vezes
e que sempre se dirá

Roseana Murray

CIDADE


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
As ondas brancas e às florestas verdes.


Sophia de mello Breyner Andresen

SOB OS TEUS PÉS


Tivesse eu as roupas bordadas do paraíso
tecidas com luz dourada e prateada
o azul e o escuro e os negros panos da noite
e a luz e as metades-luzes.
Eu espalharia essas roupas sob os teus pés.

Mas, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu tenho espalhado os meus sonhos sob os teus pés.
Por isso, pise suavemente;
afinal, você está andando sobre os meus sonhos.

Willian Butler Yeats

terça-feira, 18 de agosto de 2009

AMORES... AMORES...


Gosto de meus amores próximos
assim: com a face descortinada para o vento
e as janelas do olhar reabrindo para mim
a cortina fechada do meu pensamento.

Amores evidentes como rosas no jardim
que em mim deixem perfumes de contentamento
que invadam minhas portas abertas para dentro
e me resgatem dessa torre de marfim.

Amores são pressentimentos
dos faróis da alma em transitividade não profana
na eternidade sob as ondas dos lençóis.

E quase nada mais meu infinito amor reclama
senão que todos os amores sejam para nós
a eternidade efêmera para quem ama...


Afonso Estebanez
(Poema dedicado à doce e notável amiga
Maria de Lourdes Bózoli – 17/08/2009)

A bela de Amherst


Ela varre com vassouras multicores
E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.

Emily Dickinson

Agulhas de prata


Com agulhas de prata
de brilho tão fino
bordai as sedas do vosso destino.
Bordai as tristezas
de todos os dias
e repentinamente as alegrias.
Que fiquem as sedas
muito primorosas
mesmo com lágrimas presas nas rosas.
Com agulhas de prata
de brilho tão frio...
ai, bordai as sedas, sem partir o fio!

Cecília Meíreles

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

São de Areia


Na balada de meu coração surfa um sorriso
ainda molhado pelas águas de março daquele verão...
Arrepia meu corpo ainda salgado o gosto do riso
esparramado nas areias mornas de então...
Não são só lembranças, são tatuagens,
marcas que ficaram coladas n’alma como grãos d’areia...
São elos que não se rompem, são fontes
que jorram de mim para o mar querendo te amar...
Podes constar como saudade, infinitas que são,
me apertam os olhos e me põem a pensar...
Chorar nunca, pois são resto de risos que ainda ecoam
na concha vazia de meu coração!

Santaroza

Se eu fosse apenas...


Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!


Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!


Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana,amarga demora!
–de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...

Cecília Meireles

CAIXINHA MÁGICA


Fabrico uma caixa mágica
para guardar o que não cabe
em nenhum lugar:
a minha sombra
em dias de muito sol,
o amarelo que sobra
do girassol,
um suspiro de beija-flor,
invisíveis lágrimas de amor.
Fabrico a caixa com vento,
palavras e desequilíbrio,
e para fechá-la
com tudo o que leva dentro,
basta uma gota de tempo.

O que é que você quer
esconder na minha caixa?


Roseana Murray

domingo, 16 de agosto de 2009

M@ria & M@ria


E eu me pergunto!
O que seria do meu orkut,
o que seria de mim,
se não tivesse você aqui?!

A mulher jardineira
que vem de longe
com saia longa e colorida,
cabelos presos por uma fita.

Trazendo uma cesta
de palha repleta de flores
e nas mãos pequenas gotas d'agua,
trazendo vida e fertilidade à terra.

Neste paraiso que você criou,
não existe tempo ruim!
A noite não é fria
e o dia não é tão quente.

Com você aqui
linda e querida amiga
♥M@ria♥M@ria
a primavera dura o ano inteiro!


Maurício Chila Freyesleben

Voz e Aroma


A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar…

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.

Almeida Garret

AS FLORES DO ARCO-ÍRIS


Flores lindas,flores belas,flores de beijo
De amenos ventos e bálsamos ardentes
Pasmem da minha alma estas serpentes
Que me abalam por um utópico desejo

Flores bem-parecidas,boninas que vejo
Na Vera de pétalas coloridas e salientes
Em arco-íris pintados em várias vertentes
Quando à visão me escapam,eu praguejo!

Serranias justas,rio grisalho e sortudo
De temperamento lânguido e cor de aço
Enaltece por salpicos o teu grito mudo

Heras infames,Heras sólidas de escuro laço
Libertai-me desses laços ornados de veludo
E de baços arco-íris,traçados no seco espaço...


Luís Camões

Encontro esquecido


Sem ensaios
De despedidas
Deixaste,na sala de estar
Rastos,cenas,paixões dissimuladas

Na mesa em um canto adormecida
Fina toalha de linho branco
Taças de cristal
Encorpado vinho tinto
Uma rosa escarlate

No chão marcas do relógio quebrado
Das horas esquecidas,frases não ditas
Emoções intercalando silêncio

Das minhas mãos o vazio
Desse amor ,presente em mim
Para colocar no lugar
Do enconto esquecido

ManyPallo

sábado, 15 de agosto de 2009

Versejar Amor...


Hoje eu queria
Fazer um poema
Que tivesse a alegria
Da juventude.

Fazer versos
Com as cores do arco-íris
E o perfume das flores,
Enveredar-me
Nesses caminhos
Onde poeta e poesia
Encontram-se e deixam
Sair os sentimentos
Num lindo versejar...

Queria falar só de amores
correspondidos
amizades sinceras
e compartilhadas,
Tirar de dentro de mim
Esse coração tão magoado
Que faz sair só poemas
Tristes e machucados...
Nem que fosse só por hoje...
Ah! Hoje eu queria...

Maria Bonfá

Flores perfumadas


Deixa comigo a chave do meu coração
Seu tempo de moradia chegou ao fim...
Saia sem bater o portão
Deixe arrumado todo jardim...
As ervas daninhas que voce cultivou
leva-as todas contigo...
Comigo ficam apenas flores perfumadas.

Denise Flor©

Ismália



Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu;
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimarães

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

HÁ MOMENTOS...


Há momentos em que as
palavras não resolvem
Não traduzem mais a
saudade que me consome
E as frases já não têm sentido...
E o pranto contido molha o papel
E nesses momentos, as letras
dão lugar às lágrimas
Os sonhos se confundem aos fantasmas
E a alma se retalha em farpas
As horas... Traiçoeiras e ingratas
E as lembranças tateiam a pele
Feito agulhas que o peito fere
E as palavras...
Uma a uma se perdem
Não há verso que a dor supere.


(Sirlei L. Passolongo)

Poeminha Amoroso



Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo..."

Cora Coralina

"Sou o que quero ser, porque possuo
apenas uma vida e nela só tenho uma
chance de fazer o que quero. Tenho
felicidade o bastante para fazê-la doce,
dificuldades para fazê-la forte, tristeza
para fazê-la humana e esperança
suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não têm as
melhores coisas, elas sabem fazer o
melhor das oportunidades que
aparecem em seus caminhos."

Clαrίcє Ŀίѕρєctσr

Fio


No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...

- Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?

Cecília Meireles